Alice nas Cidades

Em um drama existencial geralmente há pouco ou nenhum subterfúgio. Não é regra, veja bem, mas é a forma como tende a funcionar os primeiros filmes de alguns diretores, como é o caso de “Alice nas Cidades” – e o que geralmente ocorre devido ao baixo orçamento. No caso, é o quarto trabalho de Wim Wenders, mas o primeiro a ter repercussão. E por não ter penduricalhos visuais, maneiras de ludibriar o espectador, filmes como esse se sustentam com a trinca da dramaturgia cinematográfica: imagens, atuações e roteiro.

No roteiro escrito pelo próprio Wender, com contribuição de Veith von Fürstenberg, um repórter alemão, Philip Winter (Rüdiger Vogler), que está nos Estados Unidos para fazer uma reportagem, precisa voltar à Alemanha. No aeroporto, conhece Lisa (Lisa Kreuzer) e sua filha, Alice (Yella Rottländer). Depois de passarem uma noite juntos, porque não tinha voo naquela ocasião, Philip atende um pedido de Lisa: levar Alice enquanto ela resolve assuntos pendentes. Ao chegar na Alemanha, no entanto, a mãe da garota não aparece e os dois embarcam em uma viagem na tentativa de encontrarem os avós de Alice.

É maravilhoso como o ritmo e a abordagem da narrativa por parte de Wender surgem na forma de um respiro em meio a tanto frenesi imensurável e desproporcional a qualquer peça de cinema minimamente comerciável. Pode parecer papo batido de cinéfilo velho, e é mesmo. Nos diálogos escritos, nada de explicações ou conversas desnecessárias. Os personagens são construídos e desenvolvidos com uma naturalidade que raramente se vê. Cada cena tem um porquê, seja ele narrativo ou sensorial.

As planícies de uma América prestes a terminar a batalha, social e emocional, com o Vietnã ao contraponto do surgimento da contracultura parecem visíveis em cenários que muito dizem em silêncio. A Alemanha, por outro lado, surge bela em sua complexidade: ainda respirando os horrores da guerra, inspiram a musicalidade potente que emergiria dali naqueles tempos. Ademais, cada cena está impregnada com o suor dos locais reais, que pulsam melancolia e energia humana.

Todo o elenco se faz notar, mas é Yella Rottländer, como Alice, que rouba todas as cenas. Quem é cinéfilo sabe o quanto é difícil ver uma atuação natural e longe de maneirismo por parte de uma criança. Rottländer, no entanto, parece uma veterana. Ela consegue carregar o título nas costas sem problema algum. É a alma do filme, com certeza, complementada pela sensibilidade de Wenders, diretor que demonstra pulso forte em sequências de bela poesia – o plano que fecha a narrativa, por exemplo, é um pedaço de memória que perdurará na minha cinefilia.

TÍTULO ORIGINAL: Alice in den Städten – DIREÇÃO: Wim Wenders – DURAÇÃO: 112 minutos – ANO: 1974

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1922

Poucas coisas são tão frustrantes quanto um filme mediano. A reação após assistir qualquer filme é sempre equivalente ao estado do trabalho. Se é bom, lindo ou maravilhoso, dá pra se ter uma noção de como você vai se sentir – assim como se for ruim, péssimo ou horroroso. Agora, se fica ali no meio, não diz muita coisa, mas também não fica calado, aí a sensação é a de suficiência, sabe? Cumpriu o seu dever. E é muito chato ir ao cinema ou assistir um filme só para bater ponto.

Assim é esse “1922“, horror baseado em conto de Stephen King (mais um). Está tudo correto, o desenvolvimento da trama é legal, bem eficiente. Nela, um pai convence o filho para os dois assassinarem a matriarca na intenção de ficarem com a terra que ela herdou. O filme foca nas consequências dessa atitude.

Me parece haver uma linha tênue que divide a confiança no espectador do produto meramente comercializável. A narração em “off” explica tudo, não deixa margem a interpretações, ainda que resvale nessa possibilidade. Os diálogos são econômicos e os planos são bem montados, sem uma edição frenética. Não tivesse a narração pontuando tudo o que está sendo mostrado, o filme teria um ganho assombroso. Em várias cenas eu imaginei como seria sem a voz do protagonista. Minha imaginação me mostrou algo mais interessante.

Há um bom momento, que é quando o pai, no alto da sua miséria, ensaia uma alucinação no pé da escada, no porão. Eu digo ser um ensaio, pois o que poderia ter ficado na subjetividade é logo descartado pela objetividade da explanação. Nada de deixar sobra ao espectador.

Poderia ter sido um ponto certo para a Netflix, que tem essa mania de tratar o cliente (não espectador) como um bebê, mas não foi dessa vez.

TÍTULO ORIGINAL: 1922 – DIRETOR: Zak Hilditch – DURAÇÃO: 102 minutos – ANO: 2017

Mais do Mecanismo e da Netflix

A melhor contribuição da série “O Mecanismo” é essa polêmica gerada por um diálogo mal escrito. Algumas pessoas estão cancelando a assinatura do serviço, entre elas o renomado crítico de cinema Pablo Villaça (aqui estão seus motivos, ou parte deles, na verdade). Vou esperar um pouco para escrever melhor sobre o assunto. De qualquer forma, vale dizer que nunca fui fã da Netflix. Gosto da praticidade. Só. De resto, dispenso o seu insignificante catálogo, filmes originais de gosto duvidoso e séries ainda mais duvidosas.

Villaça ainda escreverá outro texto, a ser publicado em breve, onde explanará com mais detalhes os outros motivos que o levaram a cancelar sua assinatura, no entanto, no seu texto ele aponta que o lançamento da série é algo de “tremenda irresponsabilidade em tempos como os nossos”, observação que fiz em meu texto. Os atores Selton Mello e Caroline Abras, o diretor José Padilha e a roteirista Elena Soares, durante as entrevistas para a promoção do lançamento da série, quase cansaram de tanto afirmar que “O Mecanismo” é uma obra de ficção, onde eventos reais são dramatizados em prol do entretenimento, e que deveria ser vista assim. Bem, em primeiro plano, esse discurso é válido. De fato, a série é uma ficção baseada em fatos reais; é uma diversão que faz uso da realidade para construir o seu universo. Porém, esse discurso cai por terra quando é contextualizado. Ora, qual é a matéria-prima da ficção criada pela série? Não é a realidade? Não são fatos reais? A série não faz uso de figuras políticas diversas, tem como base várias pessoas reais envolvidas na Lava-Jato, para a criação dos seus personagens? Sendo assim, quando o trabalho é analisado, até que ponto ficção e realidade devem ser desassociadas, se é que devem ser? Uma não está intrínseca à outra? Os realizadores sequer fazem questão de disfarçar a origem de suas “criações”: Dilma Roussef é Janete Ruscov e Marcelo Odebrecht, Ricardo Brecht. Sério mesmo?

Então, se a intenção dos realizadores era a de criar um universo sem qualquer relação com fatos reais que não fosse a do entretenimento, eles falharam miseravelmente. E fica difícil acreditar que a série não seja partidária. Aliás, acredito veemente que seja e que ela queira atacar a esquerda – no entanto, vou deixar isso de lado por não ter conhecimento suficiente sobre política para discorrer sobre o assunto. Para entender melhor como eu vejo a criação e de que maneira eu acredito que há intenções de ataques por parte dos criadores, vou dizer o seguinte: se não existe escola sem partido (e não deve existir), por que haveria de existir uma série sem partido? Quem acha que nossos atos são livres de política vive na ignorância. O nosso toque sempre reflete a nossa personalidade. Com Padilha é a mesma, e assim com Soares.

Só para deixar claro: não estou acusando o diretor nem a roteirista de serem de direita ou esquerda, mas sim de a série ter intenções patéticas de ridicularizar a esquerda. Aliás, a série não, mas o primeiro episódio, que foi o máximo que consegui assistir – mas os outros episódios também são assim, e parece que piora, é só ler a crítica de quem profissionais da área.

Visto, então, que a série não é isenta de propósitos políticos, o problema é o seu lançamento nesta época, neste momento, na conjuntura atual. O Brasil de 2018 é um Brasil que sua, sangra e chora devido ao esforço (em vão?) de se manter em pé com o mínimo de dignidade. Uma série como “O Mecanismo“, que usa do contexto que leva o Brasil a se manter em tal postura humilhante para entreter, com propósitos de diversão rasa e barata, é como ter alguém rindo e apontando para a cara do trabalhador que sua, sangra e chora.

Eu ia falar de outras coisas, mas acho melhor parar por aqui. Escrever sobre isso me causa uma fadiga mental que tenho grande dificuldade em suportar. O resto é resto, não importa. Fica pra próxima.

O Filho das Trevas

Se você já assistiu “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), então é provável que já tenha ouvido o nome Ridley Scott, e mais provável é que nunca tenha ouvido o nome Dan O’Bannon. Ele foi o roteirista da ficção-científica revolucionária e, entre outros créditos, também da obra-prima “O Vingador do Futuro” (1990). Como diretor, fez poucos filmes: o clássicos dos anos 80 “A Volta dos Mortos Vivos” (1985) e este “O Filho das Trevas”, filme que arrisca adaptar H. P. Lovecraft.

O conto transposto para a tela é “O Caso de Charles Dexter Ward”. E como em uma boa obra “lovecraftiana”, o horror em forma desconhecida está presente do início ao fim. Ainda que não seja um filme perfeito (e quem está em busca disso?), a atmosfera é muito bem construída e mantida, com direito a muito sangue e seres inomináveis.

Toda a sequência em que os personagens descem ao calabouço da casa é excepcional e demonstra ótimo exercício de direção por parte de O’Bannon, já que ele consegue nos deixar ligados sem nos perder pelos corredores escuros.

Na trama de uma esposa em busca de compreender o seu marido, que parece traçar planos mirabolantes e desconhecidos, somos levados a uma noção de que o ser humano parece ínfimo diante mistérios do universo. Esse tom obscuro e ambíguo, como se nada ali deve estar no lugar certo, é um pontos altos de “O Filho das Trevas”.

É um filme de horror que consegue se distanciar do restante pela particularidade. Tem um ritmo diferente. Não necessariamente o ritmo narrativo, mas o de ideias, o desenrolar conceitual. Tem a sua parcela de sustos, mas busca algo mais. E isso mais que o necessário para uma ótima diversão.

Os Amigos de Eddie Coyle

O título já evidencia o sarcasmo seco de um universo urbano inóspito povoado por sujeitos moralmente ambíguos. Sem enrolação e cruel em suas planícies construídas pelo proletariado da cidade de Boston, o incrível neo-noirOs Amigos de Eddie Coyle” dirigido por Peter Yates é um desenrolar de diálogos memoráveis, atuações excelentes e personagens que não medem suas ações ou dosam suas palavras para se safarem das consequências de um mundo que os devora.

Yates dirigiu o magnífico “Bullit” (1968), que eternizou as ruas de São Francisco com perseguições espetaculares. Aqui, no entanto, a elegância ganha uma forma dura, ríspida, humana. O charme não está na trilha sonora, que praticamente inexiste em prol da concepção de um mundo real e indigesto. A intensidade não está em perseguições automobilísticas, que se resumem a uma breve fuga, mas em duelos de palavras trocadas com chumbo de ironia e carregadas de um realismo que pouco se vê – e se você acha Quentin Tarantino o rei dos diálogos, pense novamente ao ver este filme.

No lugar de subterfúgios típicos que podem surgir da linguagem do cinema policial nós temos expressões faciais carregadas e uma trama que se desenvolve em sussurros. A ação está nas intenções de rostos cansados, no pesar de braços cruzados e no suspiro entre goles de café.

Os Amigos de Eddie Coyle” tem a postura estética do cinema americano dos anos 70: tudo é tátil, está impresso em filme, sem qualquer possibilidade digital. E essa é uma postura que sozinha já me encantaria, não fosse o filme encabeçado por um Robert Mitchum em absoluto domínio da sua arte, com um atuação que pode ser exposta entre as mais memoráveis da história do cinema. Fora ele, ainda temos Peter Boyle, com sua calvície tão característica, e Steven Keats sensacional como Jackie Brown – sim, Tarantino, mais uma vez.

Tudo isso seria o suficiente, não fosse o filme uma obra-prima.

Hardware – O Destruidor do Futuro

Lançado em 1990, em meio a pelo menos duas grandes ficções científica, “O Vingador do Futuro” (1990) e “O Exterminado do Futuro 2: O Julgamento Final” (1991), “Hardware – O Destruidor do Futuro” passava a impressão de ser um filme genérico que aproveitava o sucesso da época. No entanto, trata-se de um trabalho visceral e cheio de personalidade escrito e dirigido por Richard Stanley.

Não vou entrar no porquê de ele ter sido esquecido no tempo. Se é feito à margem da indústria, Hollywood tende a exterminar, não por coincidência, como faz Mark 13, o robô assassino do filme – “Nenhuma carne será poupada” é o seu lema. E mesmo com orçamento nitidamente inferior aos grandes filmes daquele início de década e um elenco desconhecido, periga de “Hardware – O Destruidor do Futuro” ser melhor que muita coisa daqueles anos. Definitivamente merece figurar entre os melhores.

Talvez a falta de repercussão se deve pela falta de história. Um sujeito chega do espaço, está indo para casa e consegue barganhar um crânio de metal. É algum tipo de núcleo de andróide desativado. Ele o leva de presente para a sua namorada, uma artista que usa metal para construir suas obras. Numa noite qualquer, depois de soldar o crânio em meio a metais e bonecas derretidas, o robô ganha vida e mata tudo o que aparece na frente.

O que destaca “Hardware – O Destruidor do Futuro” do resto é justamente o tom operístico de claustrofobia e sanguinolência concebido sobre um fiapo de trama. Stanley soube muito bem preencher o universo com cores e acidez que incomodam. É um mundo decadente, escravo de industrias, onde absolutamente nada parece possível de florescer. Concreto, vidro, fumaça, suor e radioatividade são os elementos que constituem o universo em que o radialista desperta a população com palavras de incentivo: “A boa notícia de hoje? Não há boa notícia“.

A fotografia e direção de arte são impressionantes. Se o orçamento foi pequeno, Stanley soube disfarçar muito bem. O apartamento de Jill (Stacey Travis), onde a história transcorre na maior parte, é sempre cheio de tralhas, metal e luzes. As cortinas estão sempre fechadas e o único local que parece conter oxigênio é embaixo do chuveiro. Um ambiente sufocante que não deve em nada, por exemplo, a “Blade Runner, O Caçador de Andróides” (1982) – clara influência. Alguns planos, como aquele em que Moisés (Dylan McDermott), no chão, embaixo da janela, corta o próprio braço, é de uma plasticidade incrível. Assim como o deserto no início ou, por exemplo, as cenas de sexo. Não tenha dúvidas: você está adiante de um trabalho com visual incrível.

Só olhar o filme já valeria a investida, mas tem mais. O gore rola solto, com mutilações diversas e sangue esguichando a esmo. A trilha sonora também marca a estética proposta, e no elenco desfila Iggy Pop e Lemmy, o que por si só configura um charme de marginalidade delicioso.

Jogando pra escanteio a noção norte-americana de narrativa engessada, “Hardware – O Destruidor do Futuro” é puro delírio visual e sonoro. Pouco importa os três atos ou arco dramático. É rock’n roll, sangue e distopia. Nada melhor para ilustrar o mundo.

Mecanismo e papéis

Eu não consegui passar do primeiro episódio de “O Mecanismo“, nova série criada e dirigida por José Padilha para a Netflix. E não é por falta de boa vontade. Na verdade, assistir ou dedicar o seu tempo a qualquer coisa com má vontade é uma sabotagem da própria vida. Quem faz algo na intenção de desagradabilidade? Enfim, o fato é que eu queria deixar o episódio de lado já na sua metade.

Uma das principais características que fizeram sucesso no primeiro filme protagonizado pelo capitão Nascimento é a narração em off – “Policial, ou se corrompe, ou vai pra guerra”, quem não se lembra? Sendo assim, nada mais óbvio que retomar o recurso na continuação. Depois, Padilha fez a sua versão de Robocop, uma prole de Hollywood onde era impossível qualquer expressão mais autoral. E na sua versão de Pablo Escobar, mais uma vez a narração se faz presente, um aspecto que me incomodou pela maneira capenga com que é usado. E a nova série comprova de uma vez por todas que Padilha se tornou refém da narração. O que não seria problema nenhuma se ela fosse bem empregada ou escrita.

Só para citar um exemplo: em uma cena, o personagem do Selton Mello está juntando restos de extratos bancários, quando descobre algo. Só a composição da cena já deixava isso bem claro. Ele está procurando algo, de uma forma que já sabemos, lá no início do episódio, como é feito: colando restos de papéis picotados. Aliás, a abertura é sobre esse método! Ele contorna números com uma caneta vermelha. No seu olhar, a expressão de quem descobriu alguma coisa. No entanto, a narração diz que ele descobriu algo. Não satisfeitos, o personagem diz em voz alto que descobriu algo. Ou seja, em uma única cena, uma mesma ação nos é dita três vezes!

Em uma entrevista, Mello, de quem o trabalho eu gosto demais, principalmente como diretor, disse que se interessa pela maneira como a ferramenta Netflix permeia a criação. É um ponto de vista interessante. O próprio criador da plataforma disse que um dos seus principais inimigos é o sono . Ou seja, há uma óbvia vontade em manter o espectador petrificado, imóvel e desperto em frente à televisão. E lá se vão pela janela quaisquer propostas introspectivas, respiros entre cenas ou silêncio em cena. Vão embora também a confiança e o diálogo com o espectador. É preciso mantê-lo acordado e consumindo episódio atrás de episódio – “maratonar”, como já ficou comum dizer. É por isso que você tem 15 segundos, entre um episódio e outro, para decidir que o que quer da vida é ir para o próximo episódio. É por isso, também, que algumas séries da Netflix, com todos os episódios somados, possuem a duração de um longa-metragem. Fique acordado, assista e não reclame, só passe para o próximo vídeo.

Eu não sou contra a Netflix. Pelo contrário, acho que tem opções interessantes e a sua facilidade é mesmo… fácil. No entanto, observar o que nos consome se faz necessário.

Voltando à série em si, os problemas vão além da narração. Selton Mello, por melhor ator que seja, não me convenceu como policial linha dura. Ele pode fechar a cara, xingar, bufar e bater em todo mundo: ainda há um lado fofo em seu rosto que não sai nem a tapa.

Os diálogos são péssimo. Em dado momento crucial, por exemplo, os dois protagonistas, polícia e ladrão, que são amigos de infância e não se falam há anos, finalmente se encontram em um local nada agradável para um deles (não vou falar para não estragar a sua experiência). Ao invés de construir os personagens e criar um embate entre dois sujeitos com um passado, o roteiro se limita a críticas sociais mascaradas em frases de efeitos e maneirismos de filmes de ação americanos traduzidos para o português. Esse é outro problema da série: algumas falas são bobas e falsas por soarem como palavras do cinema americano de ação colocadas no Google tradutor.

Além da impressão de mais do mesmo (um policial indignado contra o sistema, aqui chamado de mecanismo?) e com direito a simbolismos dignos de nível básico (um determinado personagem queima a língua ao tomar café quente, minutos após provarem que ele estava errado sobre algo), tem algo ainda mais grave na entrega dessa série: não é o momento.

O Brasil vive um momento de extrema complexidade e nervosismo, e não é de hoje. Na verdade, é desde o golpe de 2016, mas isso não vem ao caso. Acontece que o brasileiro, de modo geral, está farto de ser comandado por corruptos que, fora o roubo absurdo e os assassinatos em decorrência dos roubos, ainda riem da sua cara. O país vive um momento delicado, e qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade sente isso. Assim, uma série ficcional que usa da nossa raiva como catarse para o entretenimento raso não cai muito bem. Pegar os políticos que acabam com o país e a nossa paciência e transformá-los em caricaturas vilanescas com o propósito de divertir me parece algo perverso, na verdade.

Enfim, deixando Padilha, Mello e seus mecanismos de entretenimento de lado, resolvi, então, assistir um episódio de “A Casa de Papel“, série que muita gente me indicou. Depois da desastrosa experiência, difícil algo dar errado. Não é ruim, mas definitivamente não me instigou. No início, queria (e aqui, sim, com boa vontade) ver como aquele bando improvável executaria o que eles chamam de o maior roubo da história espanhola. Mas não adianta: não tem nada de refrescante. É bem convencional, mais do mesmo, está no lugar comum e tal. Veja bem, não acho que toda peça precise reinventar a roda. Não busco originalidade quando assisto qualquer coisa. Mas quero, sim, ser entretido. E mais do mesmo por 15 episódios não faz o meu estilo. Se é um filme, encaro porque sei que ainda estarei com vida quando os créditos subirem. Agora, 15 horas para algo que não me empolgou nos seus primeiros 60 minutos? Acho que não.

Por outro lado, acho de extrema relevância observar como os espectadores consomem tais obras. Entendo ao histeria acerca da série, ela repete padrões da cultura pop: personagens desajustados andando em câmera lenta, nomes divertidos (é claro que todos lembraram de “Cães de Aluguel“), música agitada e um ambiente moderno. No mais, me pergunto se sou chato demais ou as pessoas que são legais demais. Deve ser a segunda opção, apesar de não descartar a primeira. De qualquer forma, por que engolir tudo que nos é empurrado à força? Sei lá, averiguar o que me é dado se faz tão divertido quanto consumir o produto.

Para encerrar, assisti “1922“, filme também da Netflix e baseado em um conto do Stephen King. Legal, mas cai na armadilha de autossabotagem da explicação em detalhes, fora que o final não é dos melhores. Será que é isso que nos restas, obras autossuficientes que não deixam nada para a gente? Se for isso daqui adiante, fico com o daqui para trás.